Relato do Seminário eco.t #3 e Seminário Avançado do PGT: natureza e metabolismo urbano

Foto de Bruno Avellar
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No dia 21 de março tivemos o terceiro Seminário do eco.t – Grupo de Pesquisa Ecologia Política, Planejamento e Território, em conjunto com o Seminário Avançado do PGT, com a apresentação da pesquisa Natureza e Metabolismo Urbano na Reestruturação do Espaço no Brasil e no Chile. Contamos com a participação do professor Rodrigo Hidalgo (PUC Chile) e das professoras Luciana Ferrara e Beatriz Mioto (PGT/UFABC), além de outras pessoas que integram a equipe da pesquisa.

Elas apresentaram um olhar inovador para o metabolismo urbano para abordar de forma integrada as transformações materiais da cidade e da natureza engendradas pelas transformações do próprio capitalismo. O metabolismo é uma analogia feita a partir da Biologia e apropriada pela Economia Política de Marx, aborda o fluxo de materiais entre seres humanos e meio, uma relação que ocorre mediada pelo processo de trabalho industrial (que explora o corpo e a natureza).  Deram particular ênfase à ideia de fratura metabólica considerando o atual contexto, ou seja, como “[o] metabolismo imobiliário-financeiro gera novas fraturas, o que resulta no afastamento, ainda maior, das possibilidades de apropriação da natureza — da natureza segunda, a cidade — como valor de uso e como espaço comum.” (Ferrara, 2022, p. 230).

A pesquisa avança em novas abordagens e reflexões teóricas críticas sobre como o capitalismo se reinventou da urbanização industrial para urbanização sob a dominância da financeirização, visando compreender novas relações e formas de produção e instrumentalização  da natureza nesse contexto, ou seja, a natureza produzida configura-se como mais elemento da produção imobiliária que possibilita a extração de rendas. Assim, a produção do espaço tem se transformado diante da hegemonia do capital financeiro e não mais apenas do industrial, devido a sua forte atuação no setor de infraestruturas e imobiliário, fomentando novas questões para a produção do espaço e da natureza.  Isto é, o contexto urbano contemporâneo é marcado pela transição de um metabolismo urbano-industrial para o metabolismo imobiliário-financeiro.

É válido ressaltar a noção da terceira natureza – a natureza inventada (Hidalgo et al, 2016), a natureza como novo produto. E, sua interface com a era do capitalismo verde, ESG (Environmental, Social and Governance) e ações em bolsas de valores. A natureza passa a ser precificada e incorporada como fator de diferenciação do espaço, que devido à sua qualidade excepcional torna-se uma raridade. No produto imobiliário são exemplos de natureza inventada a criação de mata atlântica nativa internamente ao empreendimento, a utilização de tecnologias de baixo impacto no edifício, as certificações ambientais, e as vantagens locacionais tais como a proximidade de parques públicos e equipamentos de transporte e mobilidade.

Apresentando casos de intervenções e projetos de empreendimentos urbanos do Chile e do Brasil, trataram da apropriação desigual da natureza, gentrificação e limpeza social, e fetiche da natureza – no uso da natureza como discurso e matéria para a valorização do solo urbano enquanto se produz a desigualdade a partir de sua instrumentalização.

Na sequência das exposições os participantes discutiram as conexões e diferenças desta abordagem para leituras da Ecologia Política. Neste sentido, foram debatidas as implicações para pensar a natureza – e as questões a ela atreladas, como escassez de água – como produzida, fruto de ação humana e interações com a tecnologia. Também foram debatidas as implicações na produção da desigualdade como a detenção da tecnologia, as dimensões socioculturais da apropriação desigual – como os ideais de sustentabilidade – e a distribuição desproporcional da responsabilidade para garantir tal sustentabilidade. Em última instância, os que detém privilégios se beneficiam tanto da exploração da natureza quanto da “recuperação” da natureza urbana.

* A pesquisa recebe financiamento da Fapesp (Processo nº 2019/13233-0) e Conicyt.

Referências

FERRARA, L.N. Metabolismo urbano sob o domínio financeiro: apontamentos a partir da produção imobiliária e da natureza na cidade de São Paulo. In: Valua Terra: construir o valor dos ambientes. Olhares cruzados brasileiros e franceses. SHIMBO, L., CARVALHO, H., BARDET, F. (orgs.) São Carlos: IAU/USP; Lyon: Éditions deux-cent-cinq: École urbaine de Lyon. p. 221 – 233, 2022. Disponível em: https://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/892/808/2980

FERRARA, L. N. O lugar da natureza na produção do espaço metropolitano: do metabolismo urbano industrial para o imobiliário financeiro. In: Paulo Cesar Xavier Pereira. (Org.). Imediato, global e total na produção do espaço: a financeirização da cidade de São Paulo no século XXI. 1ed.São Paulo: FAUUSP, 2018, v. 1, p. 137-160. https://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/302

HIDALGO, R.; CAMUS, P.; ALVARADO.; PAULSEN, V.; OLEA, J. Aguas de ficción a la carta: la producción de naturaleza como nicho de renta. Bienes comunes y espacio urbano exclusivo en torno a las crystal lagoons. In: Expresión territorial de la fragmentación y segregación, 2016. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/313707807_Aguas_de_ficcion_a_la_carta_la_produccion_de_naturaleza_como_nicho_de_renta_Bienes_comunes_y_espacio_urbano_exclusivo_en_torno_a_las_crystal_lagoons.